
Metade de vc fica com os poblemas da vida!!!
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.

Um anjo na terra
esse anjo é você...
São cinco horas da madrugada. Não choveu, e no entanto paira no ar uma forte fragrância a terra molhada, como se após uma noite de chuva. Uma mistura de odores que se diriam enigmáticos, nesta madrugada em que não consigo conciliar o meu sono.
Despertou-me este cheiro de terra molhada com uma mistura de maresia, uma misteriosa cadência de sons e murmúrios,
Vejo um castelo de pedra negra e cinzenta, e um guerreiro muito ao longe com uma cruz azul cravejada de diamantes ao peito, e a mesma cruz bordada na manga esquerda do seu traje. Tem no dedo anelar esquerdo, um anel com um brasão simbolizando um rio de água e um sol resplandecente.
Fecho os olhos e procuro alucinada as minhas asas. Tenho de me transformar em anjo. Tenho de prolongar este momento, e poder voar nas asas da minha imaginação. Quero aspirar o cheiro da terra molhada, e suspensa no tempo, rever a minha longínqua Escócia e o regresso do meu guerreiro de mais uma das suas conquistas.
Que estranho! É tudo tão irreal e tão efémero que se desvanece na minha memória, e não lhe consigo ver o rosto. Não sei se sonhei, se aconteceu mesmo ou se tudo é fruto de mais uma fantasia, e divagação.
São cinco horas da madrugada. Levanto-me e vou à varanda. Está tudo tão calmo e sereno. As águas da baía repousam pachorrentas e o sol teima já em espalhar os seus raios sobre a cidade.
Olho e não vejo castelo nenhum, nem guerreiro, nem anel com brasão.
O ar está sem cheiro.
É só mais um dia a nascer.
Olho a mesa da entrada... que estranho... está lá um fio de prata com uma cruz azul cravejada de diamantes... que eu não conheço.
Nunca soube como lá apareceu, mas ainda hoje a trago ao peito...
anjo...simplesmente anjo...